Agente literário: um bem necessário (aprende Brasil!)

Baixar como e-book

por Gabriela Nascimento

O texto abaixo, escrito por Gabriela Nascimento,é um dos melhores e mais
completos quando o assunto é Agente Literário.

Bom, esse papo de agente literário sempre rende, pois é algo ainda muito incipiente no Brasil. Alguns profissionais que se apresentam como tal por aí, não o são de verdade. Sempre tem gente querendo lucrar em cima da ignorância (o não saber!) dos outros. Por isso quero aprofundar mais o assunto e deixar claro o que um agente literário é, faz e pode fazer por um autor.

Acredito que se você veio até o meu blog e a temática “Agente literário” te interessou, seja porque na verdade você esteja considerando ter um :) . Ou deveria…

Nesse tempo em que trabalho em editoras, conheci muitos novos escritores ansiosos (ou até mesmo desesperados!) por encontrar uma editora que os publique tentando fazer isso sozinhos. Alguns deles, inclusive, se recusam a acordar em repassar os tais 15% (eventualmente mais) de seus ganhos a um agente. Outros têm certeza de que seu cunhado advogado possa ter um olhar adequado sobre os contratos propostos.

Como o tema “agente literário” é extenso, resolvi listar e contextualizar minhas explanações em tópicos e subtópicos. Confira, a seguir, algumas razões pelas quais ter um agente é fundamental para sua carreira e o que ele pode fazer por você num longo prazo (que você talvez ainda não tenha sequer considerado).

No mundo todo, a figura do agente literário é bem definida e valorizada. Chegou a hora de ajustar isso no Brasil! Espero que ao final do meu post, fique bem claro como este profissional agrega valor na vida de um editor / autor e nunca mais questionemos sua enorme importância e contribuição.

O que um agente literário é, faz e pode fazer por um autor? Qual sua importância?

  • Filtro

Agentes servem como um filtro. Atualmente, os editores andam tão ocupados, que é raro considerarem submissões sem indicações de agentes. Confiamos nos (bons) agentes para filtrar entre as dezenas de milhares de aspirantes a escritores os melhores projetos. Isto significa que são os agentes que “abrem as comportas” para submissões.

Nos EUA, a maioria dos agentes recebe entre 5.000 e 20.000 apresentações de livros por ano. Então são eles que selecionam cuidadosamente os projetos que enviarão aos editores. Agentes podem se especializar em determinadas áreas ou podem ser generalistas, mas todos têm de rejeitar projetos (assim como um editor faria) de maneira que não assumam mais títulos do que são capazes de representar.

Um bom agente tem critério, assim como as editoras. Se você encontrar um que aceite representar tudo que lhe aparece, CUIDADO! Pode ser só mais um “profissional” em busca de tirar seu dinheiro por outras formas: cobrando pela leitura dos originais, propondo auto-publicação e consequentemente consultoria textual, etc. Não significa que ele irá te representar de FATO com argumentos e qualidade junto a boas editoras.

  • Edição da pré-submissão 

O mercado literário é mesmo difícil e concorrido, então seu agente deverá oferecer a você (seu cliente / cliente potencial) um trabalho de acertos em seu manuscrito, uma espécie de consultoria, para orientá-lo na execução da proposta do seu livro (e no aprimoramento de seu texto), antes mesmo de submeterem a alguma editora.

Mas, observe, os BONS agentes, muitas vezes, já propõe trabalhar as revisões antes mesmo de oferecer a representação propriamente dita para avaliar o quanto a parceria pode ser frutífera. É uma boa forma de ter uma noção do quão bem ambos podem trabalhar juntos.

Nesta fase, se o agente acredita no seu projeto pouco provável que irá lhe cobrar por qualquer aprimoramento nele. Discuta honestamente esta parte com cada agente. Atualmente, um projeto tem que ser realmente perfeito para atrair um editor, então, cabe ao agente e ao autor trabalharem juntos para aprimorar o projeto e/ou proposta para que seja o mais perfeito possível.

  • Submissão aos editores

Apresentar um projeto para os editores é uma arte e uma ciência.

Ciência: o trabalho de agente é fruto de sua rede de contatos e relacionamento: ele conhece quais editores gostam de que tipo de livros, suas impressões e interesses, além de estar por dentro das informações do mercado, como contratações e demissões, mudanças estruturais dentro das editoras, surgimento de selos; são exímios em obter informações do setor e  suas fofocas.

Arte: o trabalho do agente é selecionar cuidadosamente os melhores editores para considerar um projeto em especial, mas ele nunca saberá ao certo qual deles é que vai responder com mais interesse.

Na sequência, é tarefa do agente contatar os editores que receberam seus projetos de tempos em tempos, até que obtenha alguma resposta.

Além disso, é importante ressaltar que toda essa responsabilidade / atribuição do agente, até este ponto, é feita ainda na base da especulção (sem garantia nenhuma de lucro para ele) – um (bom, correto) agente não é pago por nada disso. Uma vez que os agentes só recebem algo se conseguem vender um projeto, eles podem muito bem passar dezenas ou uma centena de horas em seu projeto, enviá-lo aos editores, e continuar de mãos vazias.

  • Ofertas de negociação

OPA! Uma oferta (interesse) acaba de chegar! Agora, o agente vai ajudá-lo a decidir os próximos passos. Existem diferentes tipos de ofertas com diferentes tipos de territórios, prazos e outras especificações, além, claro, de adiantamento, que pode ou não existir, e varia absurdamente de valor. É função do agente negociar os termos da oferta, procurar aumentá-la, e até mesmo promover um leilão, caso várias editoras tenham manifestado interesse, e certifique-se de que todos os pingos foram postos nos is antes de o autor aceitar.

  • Negociação de contratos

Algumas (grandes) agências têm especialistas em contratos em seus escritórios (raro aqui no Brasil) para fazer as negociações, noutras (a maioria) são os próprios agentes que negociam os contratos diretamente. De toda forma, são eles que vão negociar um acordo muito, mas muito melhor do que aquele que você, sem os serviços deles, conseguiria por conta própria.

  • Manter o controle da sua publicação

Um agente acompanha os pagamentos e “inferniza” os editores até que os pagamentos sejam efetuados. Ele mantém o controle de datas importantes, discute planos de marketing com o autor e editor e, no caso de eventuais litígios, servirá de mediador entre autor e editora, além de manter-se a par de tudo para se certificar de que as coisas estão saindo como deveria.

  • Subrights

Na fase da oferta, o agente também vai tentar manter certos direitos em seu favor (seu, de autor e seu, dele, agente) tais como filmes, áudio, tradução e obras de desdobramentos, que podem ser vendidos diretamente.

Esses direitos podem ser bastante lucrativos e, quando vendidos diretamente, o autor não tem que dividir a receita com a editora (que em alguns caso pode ser de 70% em favor dela, 30% em seu favor). Algumas agências (internacionais) trabalham com departamentos de subagentes para vender esses direitos. Muitas delas mantêm departamentos específicos para cinema e direito internacional.

  • Gerenciamento de carreira

Mesmo de fora da loucura que será fazer seu livro acontecer, o agente poderá ajudá-lo a planejar a trajetória de sua carreira, agindo como um catalisador e megafone de seus trabalhos, orientando você na escolha de novos projetos, propondo novas ideias para atingir audiências maiores, e ainda funcionando como seu informante sobre os acontecimentos do mercado. De todo jeito, seu agente será um bom ouvido e um cérebro experiente, te orientando a gerir seus livros como um negócio.

  • Seu fiel advogado

Em última instância: o agente é o advogado do autor. Eles ajudam o autor a ter mais sucesso e trabalham incansavelmente para promover a carreira do autor.

Lembre-se, aqui apresentei APENAS uma lista básica das atribuições e funções do agente na vida de um autor. Muitas vezes, há mais do que isso. É um trabalho de extrema dedicação e ética, de um profissional que já trilhou um grande aprendizado e está há um bom tempo no ramo (bons agentes foram por muito tempo editores, conhecem bem o trabalho editorial, os meandros da produção e venda do livro) – e claro, de um olhar e intuição excelentes, além de uma paixão por livros.

Agora pare e pense: para todas estas tarefas que listei, o agente recebe apenas na base da comissão – mais uma vez torno a falar: o agente só é pago se e quando o autor é pago. Sua comissão geralmente fica em torno de 15% (10% algumas vezes, 20% noutras) para sua obra negociada dentro do seu país e 20% para negociações internacionais.

Agora eu fico aqui pensando se você ainda se pergunta se ter um agente vale a pena…

Deixe uma resposta