Aos Inservíveis

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por Sergio Corrêa

Permitam-me uma breve apresentação. Tenho a provecta idade de sessenta e seis anos, um inservível, pois, considerado o mercado de trabalho que se apresenta. Talvez por não ter feito cursos no Pronatec, conforme, sabiamente, sugeriu nossa Presidente. Mas basta de percepções amargas.

Aposentei-me há uns dez anos, e hoje recebo a polpuda aposentadoria de R$ 1.860,00. Nada mal, considerando a realidade deste País. Por motivos que não vem ao caso, porém, preciso de rendimentos maiores, que me permitam uma sobrevida financeira mais amena e a consequente qualidade de vida. Pretensão e água benta, talvez. Mas penso ter qualificações que me permitam aspirar tal melhoria. Senão, vejamos:

Tenho terceiro grau em Administração, especialista em Economia Empresarial e estou cursando Mestrado, com pretensões a defender a dissertação no próximo ano. Talvez, assim, melhore minha empregabilidade. Tenho uma vida saudável, pratico exercícios físicos regularmente, meu tratamento pessoal prima pela urbanidade e necessário respeito às pessoas, quaisquer que sejam suas posições ou crenças, virtudes ou defeitos, dúvidas ou certezas. Trabalhei em organizações de grande porte e atuei em consultoria e treinamento empresariais. Fui professor de terceiro grau por mais de vinte e cinco anos, concomitantemente à vida empresarial. Minhas expertises são as referentes ao Planejamento Estratégico, à Gestão de Processos, ao Marketing de Relacionamento e à Administração da Qualidade, tão necessários nos dias negros pelos quais o País passa.

Mas minhas principais ‘qualidades’, permitam-me citá-las, são a curiosidade e a esperança; quanto à primeira, procuro saciá-la pela leitura, sobre todos os assuntos, naturalmente com maior foco em economia, administração e afins. Mas não desprezo leituras saudáveis no que se refere a ciências sociais em geral, lazer, práticas educacionais e outras áreas que despertem minha curiosidade. Sou daqueles que acreditam que conhecimentos explícitos alimentam o conhecimento tácito. Quanto à esperança, confesso, pratico-a por pura teimosia, dado o cenário que ora se apresenta e o que se avizinha. Vamos em frente, pois.

Penso que minha estória não difere de milhares de profissionais que tiveram a ousadia de ultrapassar a barreira dos sessenta e cinco anos. Certamente todos, ou quase todos, ficaríamos felizes em voltar ao mercado, para que pudéssemos exercer as atividades nas quais temos efetiva experiência, e não mais nos sujeitarmos aos aviltantes salários com que o INSS nos presenteia.

O que fazer, porém, quando as empresas não nos querem mais, com medo de que venhamos a querer ‘tirar’ uma sesta após o almoço, ou, talvez, sentirmo-nos desestimulados frente a desafios? Ou quem sabe, por baixo dos panos, o que as empresas querem mesmo é desprezar a imensa experiência que adquirimos, na vida pessoal e na vida profissional, e contratar pessoas altamente tituladas aos 25 ou 30 anos de idade, porém ‘verdes’ em experiências pessoais e profissionais? Mostrariam, assim, uma extraordinária pujança ao mercado? É, pode ser. Mas é, também, uma crença tola.

Em tempo: nada contra os jovens acima mencionados; serão sempre bem-vindos. Não o fomos, também, há quarenta anos?

Mas, contentem-se, somos inservíveis.

Sergio Corrêa (sc48adm@gmail.com)