Um achado!

por Silvio T Corrêa

Esse texto é um dos capítulos de um livro chamado “O Vale das Empresas”. Foi escrito em 2001. Nessa época eu ainda tinha muitos sonhos e acreditava mais nos homens. Não deixei de acreditar, mas hoje, um pé fica atrás. Não cheguei a publicá-lo pois não o terminei, já que na época, não tinha tomado a decisão de ser escritor profissional.

Se vocês chegaram até aqui, então tenham uma boa leitura.


 

Já faziam 179 dias como andarilho errante. Na verdade, cento e setenta e nove mais quatorze horas.

Nesse andar de estradas barrentas, cidades do interior, convivi com pessoas simples, que viviam felizes com o pouco que tinham; muito mais felizes que eu, que tinha ou tive (sei lá) mais, muito mais.

Quanto eu já havia aprendido nessa andança ! Muito mais do que na universidade, no emprego, nas reuniões, nos clubes. Não posso dizer que me tornei um novo homem, mas posso, com certeza, dizer que me tornei um homem com novos pensamentos e, talvez mesmo, com novos valores.

A pinga tomada no fim da tarde, a alegria estampada no rosto de cada roceiro. O futebol entre os “doutores” e o pessoal do campo. O carneiro assado na churrasqueira improvisada.

O goleiro era o Pedro Caranguejo, que recebeu esse apelido por ser deficiente físico. Não havia maldade no apelido, tampouco chacota, ao contrário, era chamado de forma carinhosa. Foi com Pedro que recebi um valioso aprendizado.

Apesar da deficiência, ele estava sempre feliz e fazia de tudo. Jogando no gol, sentado entre as traves, saltava como uma rã para fazer uma defesa. Aquele sabia tirar o melhor proveito da vida que Deus lhe deu.

O povo da roça luta pelo que quer. Ninguém fica esperando “cair do céu”. Um procura ajudar o outro de alguma forma. Ah ! Se na “capitar” fosse assim ? Talvez não estivesse procurando por alguma coisa.

Em cada cidade histórias diferentes, novos aprendizados, novos amigos. Minha caminhada continuava. A procura por novos aprendizados não cessava.

Saindo de uma dessas cidades, longe do asfalto, uma placa mantinha os dizeres: “Vale das Empresas”. Aquilo me deixou curioso.

Seguindo a direção indicada, caminhei por uns trinta minutos e peguei carona, para minha surpresa, num Jeep importado. Márcio, que dirigia, tinha a minha idade mas aparentava bem menos, ainda que tivesse, também, os cabelos grisalhos.

Márcio era proprietário de uma das empresas que ficavam no Vale das Empresas. A Idéias, empresa dele, desenvolvia e prestava consultoria na implantação de ideias inovadoras para diversas instituições no Brasil e exterior. Mantinha um escritório na capital, com uma secretária e uma copeira, para receber os clientes.

Entre um solavanco e outro, provocado pela estrada de terra batida, a conversa foi rolando, entrecortada por alguns “tarde” e acenos entre o Márcio e pessoal do campo.

A Idéias já estava no local há cinco anos e segundo ele, foi uma decisão acertada ter vindo para o Vale.

Contei sobre as minhas andanças à procura de algo que eu não sabia bem o que era. Não cheguei a contar a história da minha vida, mas contei sobre o trabalho que eu tinha e como larguei tudo a procura de alguma coisa desconhecida.

A estrada começou a descer e, de onde estávamos, eu já enxergava o Vale. Era algo de maravilhoso. Ainda que não desse para ver com detalhes, a visão de diversas “casas” naquele local tranquilo, passava a sensação de felicidade.

A medida que íamos nos aproximando, pude ver pomares, áreas de lazer, uma piscina natural, ruas calçadas com paralelepípedos, muitas árvores na calçada, casas e, as empresas.

Achei estranho o Márcio circular o local, mas soube depois, por ele mesmo, que poucos carros circulavam no Vale. Não era uma regra, mas todos agiam assim: paravam seus carros nos arredores e iam andando.

Márcio me convidou para conhecer a Idéias e não me fiz de rogado.

A empresa funcionava em um local parecido com um galpão. A atividade na empresa era quase frenética, mas os funcionários apresentavam um calmo semblante. Não havia pressa nas pessoas. Tentando explicar, eu diria que havia o “movimento certo, exato, nem mais e nem menos”.

Um novo grupo de 5 parceiros ( eu achava que eram funcionários) estava se unindo a Idéias e o Márcio me convidou para acompanhá-los.

Fomos até uma sala vazia da empresa e o Márcio avisou que aquela seria a sala deles. Achei estranho aquela sala nua. Onde o pessoal iria sentar, guardar os materiais, enfim, trabalhar ?

Segui o pessoal até uma outra área. Mesas velhas, madeira, muita madeira, armários, ferramentas e uma grande área para se trabalhar; parecia uma marcenaria. E era.

Foi a minha primeira grande surpresa. Os funcionários (parceiros) construíam ou reformavam seus próprios móveis de trabalho. Os móveis usados, e alguns bem usados, eram comprados de outras empresas por preços bem abaixo do mercado.

Perguntei se era por economia e a resposta foi outra. As pessoas entram na empresa tendo que exercer sua criatividade e executar as suas ideias. Afinal, era uma empresa de ideias e a criatividade tinha que ser exercida a todo momento.

Fomos até uma outra área. Nessa, as pessoas escolhiam os seus equipamentos. Na verdade era um outro grupo de parceiros; 2 engenheiros e 3 técnicos que prestavam serviço para a Idéias. Os computadores eram montados segundo a escolha do “freguês”. Com exceção dos monitores, impressoras, scanners e semelhados; nesse caso poderiam ser novos ou revisados.

Segundo o Márcio, os parceiros tinham uma economia de mais de 40% na compra dos equipamentos. Sim, os equipamentos eram comprados e pagos com o resultado do trabalho de cada grupo de parceiros. No entanto, se quisessem comprar na capital, poderiam fazê-lo; mas ninguém fazia.

Fomos tomar um café no restaurante comunitário, que atendia a várias firmas do Vale. Foi quando eu soube da existência dos parceiros.

A Idéias tem pouquíssimos funcionários; menos de 10% das, quase, 150 pessoas que atuam. O restante está dividido em micro empresas, constituídas juridicamente, que atuam em parceria com a Idéias. Não existem gerentes na Idéias; existem coordenadores de projetos que se reportam ao Márcio.

A Idéias tem um curioso sistema de pagamento, chamado de bônus-hora. Na verdade, esse sistema vale para todas as empresas do Vale. O bônus-hora pode ser convertido em treinamento, viagens, equipamentos ou moeda corrente.

Pousadas existentes no Vale das Empresas também aceitam o bônus-hora como pagamento. Ah ! As pessoas, normalmente, ficam no Vale durante a semana, mas existem as que moram lá. Uma parte do Vale é residencial e quem quiser construir, pode fixar moradia.

As escolas existentes fornecem educação até o segundo grau e a partir do primeiro ano do segundo grau, os alunos podem estagiar em qualquer empresa do Vale, sendo pagos, também, com bônus-hora.

Andando e conhecendo a Idéias, fomos até a pequena cozinha beber água. O calor estava grande. De imediato me chamou a atenção um geladeira de madeira. Márcio viu minha curiosidade e explicou que aquela tinha sido uma das ideias, gerada pela Idéias.

Uma empresa de reforma de geladeiras tinha um problema sério para conseguir clientes. Não que os clientes achassem o custo alto. O problema era levar a geladeira para reformar e deixar o cliente sem ela.

Imagine fazer uma reforma da geladeira na casa do cliente. Lixadeira, maçarico para solda, compressor para pistola de tinta, além do cliente continuar sem poder usar o eletrodoméstico. E o cheiro da tinta ?

Alguém da Idéias, teve uma solução simples. Forrar a geladeira com lâmina de madeira e encerar.

Assim fizeram. Compraram uma geladeira velha, bem maltratada. Lixaram a ferrugem com lixa d’água, isolaram as partes expostas contra ferrugem e cobriram com laminado, nesse caso, de mogno. Deram o acabamento com cera e estava pronto. Tudo feito com a geladeira em uso e por uma única pessoa.

Contou o Márcio que todo processo foi fotografado e enviado ao cliente. Como acontece com toda “51”, o cliente exclamou: “Como não pensei nisso antes ?”

Não pude deixar de pensar em como as coisas são simples, como a vida é simples. No entanto, estamos sempre fazendo de tudo para complicá-la. Tentamos afastar os problemas sem resolvê-los, acabando por atraí-los ainda mais.

Na sala do Márcio havia uma estante que poderia ser transformada, por uma única pessoa, em outra estante, modificando os compartimentos, a altura e a largura. Foi uma ideia gerada para um profissional que estava sempre mudando de cidade e queria um móvel que fosse adaptável a qualquer ambiente.

Márcio propôs que eu ficasse aquela noite no Vale. Aceitei e fui para uma das pousadas.

 

(No nome da empresa, Idéias, foi mantido o acento por ser um nome próprio. As demais correções forma atualizadas.)