Conto impróprio para menores de 18 anos.
Humberto, na comemoração dos 35 anos de casado com Maria Olinda, deu-lhe uma bela aliança de diamantes, esmeraldas e rubis. Eu fiquei embasbacado com a beleza da joia, enquanto minha esposa me beliscava e dizia, graciosamente, no meu ouvido, que queria uma igual. Como não sou de jogar em loteria, entendi que ela estava brincando.
Maria Olinda disse que só a usaria em ocasiões especiais.
Meu amigo sempre foi um “galinha” e percebi que a aliança era pra calar algum sentimento de culpa.
Pode ter igual, mas mais curioso do que eu, não existe. Eu precisava chamar o Humberto para tomar um chope e levar uma conversa. Porém, o trabalho não me permitiu e levei uns dois meses para encontrá-lo.
Eu tinha acabado de chegar em casa e estava pegando uma cerveja quando o telefone tocou:
— Beto (meu nome é Alberto)! Preciso conversar com você agora!
— Porra Humberto! Agora??? Estou cansado, com um calor dos infernos, doido pra tomar uma cerveja.
— Não dá, “bicho”! Precisa ser agora! Não sei o que faço.
— Está bom! No mesmo bar que nos encontramos na última vez?
— Em meia-hora estarei lá!
Nem se despediu. Foi o tempo de eu tomar uma ducha, vestir a primeira roupa que encontrei e chamar um táxi.
Quando cheguei no bar, Humberto já estava bebendo, fumando — vício que ele já havia largado há alguns anos — e sacudindo a perna, como sempre fazia quando estava muito nervoso. “Pô bicho! Demorou pra burro!”
Não respondi e pedi um chope.
— Cara! Se lembra da Olímpia?
— Olímpia? Quem é Olímpia, Humberto?
— Pô! Como não se lembra? Você até disse que ela era maravilhosa.
— Não lembro não.
— A sobrinha da Maria Olinda, que passou um final de semana lá em casa.
— Aquela ruiva gostosa? Claro! Como é que não vou lembrar.
— Pois é, ela morreu!
— Rapaz, não me diga? Que pena! A Maria Olinda deve estar abatida.
— Não, ela ainda não está. Mas vai ficar. E muito!
Fiquei sem entender nada e Humberto começou a falar. Deve ter falado uns vinte minutos sem parar.
“Naquele final de semana, já era madrugada quando desci pra tomar um copo d’água. Quando cheguei na sala, encontrei a Olímpia dormindo no sofá, só de calcinha e sutiã.”
— Ih! Conta mais! Conta mais! — disse eu, enquanto pedia outro chope.
— Pois é: quando tive aquela visão eu fiquei maluco e acabei tropeçando na mesinha. Foi o suficiente para Olímpia acordar!
— Oi tio! — ela disse.
— Aí tu broxou, né Humberto?
— Rapaz, ela falou de um jeito tão sensual, que parecia que tinha alguém puxando meu pijama por uma cordinha.
— Continua! Vai! Continua!
— Oi Olímpia, nem vi você aí. — disse enquanto tentava disfarçar a barraca armada. Vou tomar uma água, você quer?” E ela respondeu: “Eu vou com você.
“Beto, foram umas duas horas de muita ralação naquela cozinha. Eu fiquei maluco pela mulher e a partir daquele dia, nos encontrávamos umas três vezes por semana. Até que chegou o dia do aniversário do meu casamento e ela viu o anel que dei à Maria Olinda.”
— Já sei — eu disse — Ela quis um igual.
— Isso mesmo. Me perturbou um tempão por causa do anel. Até que eu prometi dar-lhe um. O único problema é que aquele foi feito especialmente pra Olinda.
— Ferrou!
— O único jeito foi pegar o anel escondido, dar a Olímpia como se fosse um presente e depois arrumar uma maneira de pegar de volta e ainda fazer uma “cena” como se ela tivesse perdido.
— Ah safado!
— O problema é que ela morreu antes de eu pegar o anel. Eu quero que você me ajude!
— Como?
— Vamos agora para o velório dela e tentar conseguir uma pista.
Como eu poderia recusar um pedido desse? E de um amigo? Concordei e fomos para o velório.
Tinha fila pra chegar perto do caixão e nós dois, com a cara de desolados, entramos na fila. Humberto estava na minha frente. Quando chegou a vez dele, abaixou a cabeça como para fazer uma oração e começou a falar, baixinho: “Filha de uma boa mãe, safada, piranha, vaca, filha da…” Abracei Humberto para “consolá-lo” e disse: “Que é isso? Daqui a pouco vai ter gente escutando.”
— Beto, olha a porra do dedo dela.
— Cacete! Que merda! O anel!!!!!
— Me dá cobertura que eu vou tirar o anel!
Enquanto eu fingia estar rezando junto com Humberto, ele começou a puxar a aliança do dedo de Olímpia, mas o anel não saía por nada. Parecia que o dedo estava inchado.
De repente Humberto começou a chupar o dedo da moça. Eu sei lá o que ele estava pensando, mas parecia que estava fazendo um boquete no dedo. Chupava um pouco e tentava tirar; chupava de novo e puxava o anel. Sem mais nem menos começou a morder o dedo, tentando puxar o anel com os dentes enquanto falava, para mim, pelo canto da boca: “Pega manteiga, óleo, qualquer coisa gordurosa.” E eu tinha que, tristemente, pedir desculpas ao pessoal que estava na fila, dizendo que Humberto era tio da morta e estava profundamente desolado.
No bolso do blazer encontrei um chocolate amassado que não sei há quanto tempo estava lá. Perguntei: “Humberto, serve chocolate?”
— Qualquer coisa, qualquer coisa! Passa pra cá. Me dá cobertura.
Me curvei por cima das costas dele, fingindo dar apoio naquela hora triste, ao mesmo tempo em que ouvi alguém gritar que tinha um maluco passando alguma coisa em Olímpia. Vi as mãos, da morta, “pintadas” de marrom-cocô e Humberto chupando e lambendo tudo.
“O que é isso? O que é isso, Humberto?” — gritei! Com a cara toda lambuzada e sob olhar penalizado de todos, ele disse: “É merda!” E fomos saindo, sem olhar pra trás, deixando uma bagunça enorme naquele velório.
A uma distância segura, Humberto cuspiu o anel e caiu na gargalhada.
Seis meses depois, o telefone tocou:
— Beto! Preciso conversar com você agora!
Era o Humberto. Desliguei!
Excelente!
Muito bom. Desfecho inusitado.
Oi Amauri. Obrigado pela visita. Abraços.